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Um acidente não acaba nunca...

   Os acidentes não acabam nunca..... E em diferentes níveis; de um lado, vimos que tais acidentes deixam marcas profundas nas vítimas. Devemos não apenas deplorar os numerosos mortos e feridos, as pessoas fisicamente atingidas de maneira mais ou menos grave, e de modo irreversível....mas, também o pessoal, as populações circunvizinhas psiquicamente traumatizadas para sempre. Supõe-se que os efeitos, embora poucos conhecidos, sejam sempre extensos; só dispomos de informações incompletas: fugas em pânico na época do acidente de Three Miles Island, síndrome de radiofobia na Ucrânia e retorno do medo nuclear em vários outros países depois do acidente de Chernobil.... O acidente industrial provoca uma onda de choque no tecido social, abala convicções, semeia ou desperta o medo, exaspera as posições e as opiniões pessoais.
   E essa onda de choque tem conseqüências poderosas, que nem sempre são imediatas, longe disso, nem necessária e facilmente avaliáveis ou quantificáveis. Mas pode-se dizer que tais acidentes perturbam e chocam as consciências, depois afetam as pessoas silenciosamente, de uma forma que às vezes leva muito tempo para revelar-se: a ausência de reações visíveis, barulhentas, não significa a ausência de efeitos. Embora nos faltem resultados de investigações sistemáticos sobre o assunto, temos à disposições dados e informações suficientes para confirmar esse efeito poderoso e muitas vezes subterrâneo dos acidentes. O desenvolvimento da síndrome de radiofobia, da fobia das radiações ionisantes entre os habitantes da Ucrânia é relativamente generalizado e preocupa seriamente as autoridades médicas soviéticas ( RGN 1998). A síndrome pode chegar até à recusa de contatos físicos , e, em conseqüência, do casamento de pessoas que se achavam muito distantes da região de Chernobil, mas tinham ligação com alguém que estava lá no momento do acidente.
   Os acidentes não acabam nunca, tanto é verdade que a análise dos acidentes nunca é completa, abrangente, nem nunca se consegue cercá-la e conclui-la. O dossiê jamais se fecha. Creio, que indicamos muitos elementos que seguem nessa direção. A compreensão de um acidente exige uma enormidade de fatos, acontecimentos, fenômenos, conhecimentos, que nem sempre se relacionam com o domínio técnico, material, com o mundo da racionalidade objetiva e instrumental. Mas essa, compreensão também depende dos fatores humanos que, é necessário enfatizá-lo, são na maioria das vezes um tanto misteriosos, e de difícil apreensão, como reconhecem os próprios empresários e especialistas.
   Portanto, jamais se consegue concluir definitivamente o dossiê de um acidente: mesmo quando se houver feito a análise muito detalhada, continuará existindo a questão primordial do sentido global do acidente, a priori enigmático.
   Muitos fatos e eventos necessitam de uma interpretação, a melhor possível, levando-se em conta os dados disponíveis. Ora, às vezes os dados são muito contraditórios. Além disso, retomando a tese do antropólogo do trabalho, J.P. Darré, na maioria das vezes cada um de nós expressa apenas um ponto de vista diante de um conjunto complexo, intrincado, da realidade humana (Darré, 1985). Sobre o acidente de Bhopal, P. Shrivastava lembra que as atitudes em relação a essa tragédia podem ser muito diferentes, e chega a classificar, segundo um modelo, as reações humanas e coletivas depois do acidente; estabelece três grandes tipos de atitudes, três “grupos de pressão” ou “grupos de opinião”: as vítimas, os executivos ou autoridades ( entre os quais os representantes da Union Carbide), e os grupos de apoio às vítimas (ecologistas, jornalistas, magistrados...).
   Essa variedade não nos parece um obstáculo no momento atual. A multiplicidade de representações e de análises dos acidentes faz-se necessária: é preciso que elas preparem reflexões e inúmeros debates mais aprofundados, pois estes ainda são, infelizmente, muito fragmentados e enclausurados em círculos restritos demais aos quais a grande mídia e os sobressaltados ecologistas quase nunca têm acesso. O acidente, além disso, favorece o reforço de atitudes defensivas dos especialistas e dos que detêm o poder de decisão.
   Observa-se então uma certa rigidificação das representações: o erro humano ocupando as manchetes, apelo ao fortalecimento de procedimentos e da formação e seleção de pessoal, além de expressões vigorosas de controle das situações industriais. Diante de acidentes como os de Chernobil e Bhopal, os representantes das empresas e indústrias correspondentes nos países ocidentais declaram, invariavelmente, como já vimos: “isso não poderia acontecer aqui”
   No caso de Bhopal, vários autores tentaram mostrar que não era bem esse o caso, argumentando que os problemas que haviam levado ao acidente não tinham nada de excepcional, que tais problemas podiam ser encontrados nas fábricas e nos sistemas técnicos do mundo ocidental (CISI, 1985), (Engler,1985), ( Stix,1989), (Meshkati, 1989) e ( Shivasava 1992). Não resta dúvida que o próprio estatuto dos países em via de desenvolvimento exigiria um acréscimo de precauções ( Kasperson 1987), o que claramente não seria o caso da parte da Union Carbide, da UCIL, e das autoridades de segurança da Índia.
   Enfim, “Os acidentes não acabam nunca”: tal devia ser o lema dos especialistas, uma regra coletiva, e não apenas uma conclusão devido à complexidade, à incerteza, à pluricausalidade dos acidentes. Creio ser muito difícil manter-se no divisor de águas entre a dramatização – portanto uma reação mais ou menos excessiva, além de passional e apaixonada em relação aos acidentes – e a eufemização, atitude que tende a apagar, atenuar, até negligenciar a especificidade do acidente. É possível tal atitude por parte do perito ou de um responsável por tomadas de decisões ? Isto é, uma atitude de equilíbrio “ideal”, quase perfeito, muito razoável e racional, que leva em conta todas as coisas, pesando os prós e os contras. Existiria uma posição mediana, que fosse suficientemente completa, argumentada, em conseqüência, rigorosa e desapaixonada.... Cremos que não.
   Entre dramatização e eufemização, o caminho nos parece estreito demais. Temos uma inclinação pessoal para a dramatização, a representação dramática dos acidentes, desde que se faça essa representação com todos o conhecimento de causa que seja alimentada por uma busca contínua de informações, um confronto permanente de dados, uma reflexão e um debate fundamentados.
Cremos ver, ao contrário, excessivas forças de resistência trabalhar para eufemizar acidentes, desastres e catástrofes. Para banalizar as indústrias de riscos que nada têm de comum nem de banal Para rejeitar os ensinamentos, as lições que se podem tirar de acidentes ocorridos “em outros lugares”, em outros setores industriais, em outros países: “Isso não poderia acontecer aqui, “Isso não poderia acontecer no nosso país”
   Creio observar com demasiada freqüência, após incidentes graves ou acidentes, uma certa pressa de proclamar aos quatro ventos que aquilo não podia acontecer “aqui”....esta postura de eufemização é nefasta para que se adote uma atitude sistemática de curiosidade, de interrogação do real, de manutenção de uma vigilância coletiva, de questionamento prudente, mas eficaz, das aquisições, conhecimentos e princípios de segurança.
Como declarou o primeiro-ministro do estado de Madhia Pradesh, após vários incidentes também após o acidente que causou uma morte em 1982: “Não podemos de repente limitar ou interromper o funcionamento de fábricas”. As instalações industriais de Bhopal são e sempre serão seguras ( Engler, 1985) ( p.496).
   J. e R. Kasperon, na análise que fizeram sobre Bhopal, observam: “A experiência anterior da prevenção de doenças comprova a necessidade de planos de longo prazo e o grau de determinação necessário para chegar a benefícios fundamentais (...) Assim, devemos esperar que a profundidade dos problemas apresentados em Bhopal necessite de um decênio de adaptação antes que nos seja dada uma resposta adequada. Além, disso, apesar de Chernobil, ninguém deveria ficar surpreso, à medida que o acidente for se distanciando da atenção social e da urgência, que os valores conflituosos tendam a corroer os primeiros avanços na solução dos problemas levantados pelo acidente de Bhopal tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em via de desenvolvimento (Kasperon,1987) (p.601)”. (Grifo nossos.)
   Contra essa forte tendência à normalização dos acidentes, ao esquecimento, a uma forma de negação de uma realidade sobretudo transtornadora, traumatizante, temos de adotar uma atitude salutar de manter o questionamento construtivo. Em nossa opinião, é esse o trabalho dos especialistas, sua missão fundamental.

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